Especial A TARDE | ENEM 2015 - page 5

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Salvador, sábado, 12/09/2015
Abatidos pelo fadinho harmonioso e
nostálgico dos desterrados, iam todos,
até mesmo os brasileiros, se concen-
trando e caindo em tristeza; mas, de repente, o ca-
vaquinho de Porfiro, acompanhado pelo violão do
Firmo, romperam vibrantemente com um chorado
baiano. Nada mais que os primeiros acordes da mú-
sica crioula para que o sangue de toda aquela gen-
te despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse
o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras
notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais deli-
rantes. Já não eram dois instrumentos que soavam,
eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente,
a correrem serpenteando como cobras numa floresta
incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi
de amor: música feita de beijos e soluços gostosos; ca-
rícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo.
(AZEVEDO, Aluísio)
No romance
O Cortiço
(1890), de Aluísio Azevedo, as
personagens são observadas como elementos coleti-
vos caracterizados por condicionantes de origem so-
cial, sexo e etnia. Na passagem transcrita, o confron-
to entre brasileiros e portugueses revela prevalência
pelo elemento brasileiro, pois:
a)
destaca o nome de personagens brasileiras e omi-
te o de personagens portuguesas.
b)
exalta a força do cenário natural brasileiro e con-
sidera o do português inexpressivo.
c)
mostra o poder envolvente da música brasileira,
que cala o fado português.
d)
destaca o sentimentalismo brasileiro, contrário à
tristeza dos portugueses.
e)
atribui aos brasileiros uma habilidade maior com
instrumentos musicais.
AUMENTO DO EFEITO ESTUFA
AMEAÇA PLANTAS, DIZ ESTUDO.
O aumento de dióxido de carbono na atmosfera, resul-
tante do uso de combustíveis fósseis e das queimadas,
pode ter consequências calamitosas para o clima mun-
dial, mas também pode afetar diretamente o crescimen-
to das plantas. Cientistas da Universidade de Basel, na
Suíça, mostraram que, embora o dióxido de carbono seja
essencial para o crescimento dos vegetais, quantidades
excessivas desse gás prejudicam a saúde das plantas e
têm efeitos incalculáveis na agricultura de vários países.
O Estado de São Paulo
, 20 set. 1992, p.32.
O texto acima possui elementos coesivos que promovem
sua manutenção temática.
A partir dessa perspectiva, conclui-se que:
a)
a palavra “mas”, na linha 2, contradiz a afirmação
inicial do texto: linhas 1 e 2.
b)
a palavra “embora”, na linha 3, introduz uma expli-
cação que não encontra complemento no restante do
texto.
c)
as expressões “consequências calamitosas”, na linha
2, e “efeitos incalculáveis”, na linha 5, reforçam a ideia
que perpassa o texto sobre o perigo do efeito estufa.
d)
o uso da palavra “cientistas”, na linha 3, é desneces-
sário para dar credibilidade ao texto, uma vez que se
fala em “estudo” no título do texto.
e)
a palavra “gás”, na linha 4, refere-se a “combustíveis
fósseis” e “queimadas”, nas linhas 1 e 2, reforçando a
ideia de catástrofe.
QUERÔ
DELEGADO — Então desce ele. Vê o que
arrancam desse sacana.
SARARÁ — Só que tem um porém. Ele é menor.
DELEGADO — Então vai com jeito. Depois a gente en-
trega pro juiz.
(Luz apaga no delegado e acende no repórter, que se di-
rige ao público).
REPÓRTER — E o Querô foi espremido, empilhado, es-
magado de corpo e alma num cubículo imundo, com ou-
tros meninos. Meninos todos espremidos, empilhados,
esmagados de corpo e alma, alucinados pelos seus de-
sesperos, cegados por muitas aflições. Muitos meninos,
com seus desesperos e seus ódios, empilhados, espremi-
dos, esmagados de corpo e alma no imundo cubículo do
reformatório. E foi lá que o Querô cresceu.
MARCOS, P.
Melhor teatro
. São Paulo: Global, 2003 (fragmento).
No discurso do repórter, a repetição causa um efeito de
sentido de intensificação, construindo a ideia de:
a)
opressão física e moral, que gera rancor nos meninos.
b)
repressão policial e social, que gera apatia nos
meninos.
c)
polêmica judicial e midiática, que gera confusão en-
tre os meninos.
d)
concepção educacional e carcerária, que gera como-
ção nos meninos.
e)
informação crítica e jornalística, que gera indignação
entre os meninos.
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CABELUDINHO
Quando a Vó me recebeu nas férias, ela
me apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele foi es-
tudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei
de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de
ateu. Como quem dissesse no Carnaval: aquele menino
está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de re-
gências verbais. Ela falava de sério. Mas todo mundo riu.
Porque aquela preposição deslocada podia fazer de uma
informação um chiste. E fez. E mais: eu acho que buscar
a beleza nas palavras é uma solenidade de amor. E pode
ser instrumento de rir. De outra feita, no meio da pela-
da um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu
não disiliminei ninguém. Mas aquele verbo novo trouxe
um perfume de poesia à nossa quadra. Aprendi nessas
férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com
elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aque-
la que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais
das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas
informam. Por depois ouvi um vaqueiro a cantar com
saudade: Ai morena, não me escreve / que eu não sei a
ler. Aquele a preposto ao verbo ler, aomeu ouvir, amplia-
va a solidão do vaqueiro.
BARROS, M.
Memórias inventadas:
a infância. São Paulo: Planeta, 2003.
No texto, o autor desenvolve uma reflexão sobre diferen-
tes possibilidades de uso da língua e sobre os sentidos que
esses usos podem produzir, a exemplo das expressões
“voltou de ateu”, “disilimina esse” e “eu não sei a ler”.
Com essa reflexão, o autor destaca:
a)
os desvios linguísticos cometidos pelos personagens
do texto.
b)
a importância de certos fenômenos gramaticais para
o conhecimento da língua portuguesa.
c)
a distinção clara entre a norma culta e as outras va-
riedades linguísticas.
d)
o relato fiel de episódios vividos por Cabeludinho
durante as suas férias.
e)
a valorização da dimensão lúdica e poética presente
nos usos coloquiais da linguagem.
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